Regulamentação da nossa profissão
Postado por Osvaldo Santana
Esse é o assunto polêmico do momento. Parece que se fala disso em todos os sites de tecnologia do momento mas acredito que a minha opinião sobre esse assunto ainda não apareceu em nenhum deles.
Por essa razão vou escrever a minha opinião sobre o tema aqui no meu blog para que as pessoas que pensam o mesmo que eu possam se manifestar sobre o assunto.
A minha opinião sobre a tentativa de regulamentar as profissões ligadas à informática é: eu não me importo.
Sério. Eu não me importo se a profissão na qual eu trabalho vai ser regulamentada ou não. Porque eu não me importo com isso? Porque eu estou me formando e já trabalho a mais de 5 anos na área. Para as pessoas nessa situação nada vai mudar.
O cenário onde nossa profissão não é regulamentada é o que vivemos hoje, logo, não vou me alongar muito nas explicações sobre ele e falarei mais sobre o cenário hipotético onde a regulamentação exista.
Hoje um profissional da área que busca o seu lugar no mercado de trabalho se apresenta aos pretensos contratantes munido de todo o seu histórico profissional, ‘luta’ contra os outros candidatos e, no final, ganha ou perde a batalha (ou emprego).
Na ponta do contratante as variáveis usadas para escolher um candidato para a vaga aberta são muitas. Tem empresa que pede diploma, outras pedem *um bom diploma* e outras nem pedem um diploma. Algumas outras pedem certificações caras, outras pedem certificações baratas e algumas não pedem certificação. Algumas pedem experiência, outras pedem exageros de experiência e outros exigem inexperiência(!).
Mas tem algo que o contratante pede que é sempre uma constante: qualidade. A qualidade é uma característica ortogonal à todas as outras já mencionadas. A falta dela também. Então existem profissionais bons diplomados e não diplomados, Profissionais ruins certificados e não certificados e todas as outras combinações possíveis.
No cenário onde a regulamentação existe teríamos um grupo só com os profissionais diplomados ou com algum tempo de experiência que seriam carimbados com o selo “Regulamentado!”.
Pois bem, em que isso mudaria a vida dos contratados? Se eu não sou ‘regulamentado’ eu só conseguiria empregos onde a ‘regulamentação’ não é necessária restringindo aí as suas chances de ser contratado. Se ele for um bom profissional ele vai numa dessas ‘uniníquel’ estuda uns 2 ou 3 anos lá, pega um ‘canudo’ e grampeia junto com o Curriculum e tudo está resolvido. Só não pode esquecer de pagar a mesada para o órgão da categoria que seria criado à reboque da regulamentação.
Se o profissional não-regulamentado for muito bom *mesmo* e uma empresa o recusa por essa razão o azar é da empresa. Ela que se dane sozinha. Sorte do profissional também por não ter que trabalhar em uma empresa que considere o carimbo de “Regulamentado!” mais importante do que as qualidades do profissional.
Os profissionais regulamentados tem a ilusão de que com a regulamentação deixará de existir a concorrência desleal dos “Sobrinhos do Tio” que fazem um trabalho meia-boca por ‘délão’. Se fosse assim não teríamos mais abortos clandestinos no país, muito menos venda de medicamento sem receita, etc.
Não podemos nos esquecer que as empresas que querem pagar pouco sempre vão pagar pouco não importando se o profissional é regulamentado ou não ou se a qualidade do trabalho será boa ou não (Vale lembrar que a regulamentação também não garante a qualidade do serviço).
E na vida dos empresários, o que mudaria? Pouca coisa também. Se ele contratar um profissional regulamentado e o serviço for ruim o que acontece? Denunciá-lo por maus serviços é o mesmo que denunciar um médico por erro médico: você pode até ganhar alguma recompensa, mas o estrago já foi feito.
E se ele não faz questão de ter um profissional regulamentado ele vai contratar essa pessoa de qualquer jeito. Mesmo que seja para registrá-lo como ‘lavador de pratos’. Se eu fosse empresário eu não daria a mínima importância para o carimbo de “Regulamentado!” de um profissional porque estaria restringindo as minhas alternativas de contratação e fazendo isso quantos bons profissionais não-regulamentados eu estaria perdendo?
Eu faço faculdade e sei que isso não atesta a qualidade de um profissional. Também já fiz certificação e sei que isso também não atesta a qualidade de um profissional. Não vai ser um carimbo “Regulamentado!” que fará isso ser diferente.
E se a regulamentação não vai mudar em nada porque eu deveria me preocupar com ela?
4 Responses to “Regulamentação da nossa profissão”
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outubro 2nd, 2006 at 9:17 am
Osvaldo,
Concordo em parte, mas discordo do geral.
Acho que alguma coisa muda para todos: com a regulamentação da profissão passa a existir de forma independente:
- Conselho Regional
- Sindicato
- Greve (não é paralização!)
- Direitos em geral
Coisas que muita gente da área nunca viu.
Outra coisa que muda (se a regulamentação for bem feita) é que certificações caras (e tecnicamente inúteis) passam a ter menos valor em comparação a um registro em Conselho Regional, obrigando os profissionais a conhecer mais da profissão, em vez de se especializarem em produtos de determinadas empresas.
Claro que este último parágrafo é um tanto utópico, pois todos sabemos que o sistemas sócio-político brasileiro é um tipo de corporocracia disfarçada. =P
Ainda assim, resta a esperança.
[]’s
outubro 2nd, 2006 at 9:30 am
O que você está me dizendo que vai aparecer já existe com exceção ao conselho de classe. É só você dar uma chafurdada nas legislação atual:
Sindicato: Já existe sindicado da categoria. Até mais de um (infelizmente). Mas a grande maioria dos trabalhadores da área optam por se desvincular do sindicato para poupar o custo de um dia de trabalho. Isso faz com que o sindicato se enfraqueça e não consiga mobilizar grandes reinvindicações nem organizar Greves da categoria.
É claro que existem sindicatos que são mais ‘caça-níqueis’ do que outros, mas os conselhos de classe também são máquinas de arrecadação financeira monstruosas e os benefícios concedidos por eles se assemelham ao de um sindicato convencional.
Desta forma, mesmo com a regulamentação, nada mudaria neste campo.
Direito em geral: Todos temos direitos e deveres. Existe, inclusive, legislação e jurisprudência em nossa área de atuação. A regulamentação não mudaria muita coisa por aqui também.
A regulamentação não vai diminuir em nada a busca pelas certificações. Não podemos nos esquecer que sempre existirá a necessidade de profissionais altamente especializados em apenas um produto. Quem aceita o risco de se especializar em apenas um produto é o profissional e não a empresa que exige tal experiência.
E por último a ‘corporocracia’ também não vai mudar. Ela já existe e não vai ficar nem maior nem menor, vai apenas mudar de lugar.
outubro 3rd, 2006 at 11:13 pm
Osvaldo,
Com certeza vc sabia disso, mas ficou “visualmente” de fora do seu texto. Uma empresa não contratar o profissional “regulamentado” não é pq ela não queira.. ou problema dela, é lei: O conselho pode multar a empresa caso alguem não formado / regulamentado seja colocado para exercer a profissão. é o que acontece na administração.
Outro ponto é o que sempre coloco : o poder que é dado para esses conselhos, chegando até mesmo a ve-los controlando as faculdades eg:
Conselho de administração determina que para ser professor de admnistração precisa ser formado na área.
Ou seja, Não sei se fico no só “não me importo”. Pq peso bastante o impacto que tal decisão teria nos diversos ambientes e principalmente no seguinte fato:
Se hoje já temos falta de mão de obra, sofremos já com os “estragadinhos” imagine na hora que o meio tiver uma restrição de “diploma” que eu e vc sabemos o peso que a falta dele faz.
Eu realmente queria que ao invés de regulamentação, existisse um controle maior nas faculdades particulares / públicas, uma integração maior entre empresas / universidade, mais apoio as incubadoras e por ai vai.
Vivi isso no curso de desenho industrial e agora to vivendo isso no mundo da “computação”, sinceramente não precisamos disso agora e não da forma que é feito nas outras profissões.
[s]
Marcelo
outubro 4th, 2006 at 9:04 am
Eu não esqueci por completo de falar sobre a obrigação das empresas em contratar somente profissionais regulamentados, veja este trecho: “…E se ele não faz questão de ter um profissional regulamentado ele vai contratar essa pessoa de qualquer jeito. Mesmo que seja para registrá-lo como ‘lavador de pratos’…”
É o que eu disse, os caras terão que trabalhar à margem da lei (marginais) mas vão continuar trabalhando e se eles não quiserem trabalhar dessa maneira por muito tempo eles podem forçar o profissional a se graduar, caso ele já tenha idade para tal.
Nunca podemos nos esquecer que no Brasil existe aborto clandestino, venda de remédios sem receita e pedreiro analfabeto projetando e construindo casas. Não foi a regulamentação das profissões de médico, farmaceutico e de engenharia civil que impediram essas pessoas de exercer suas funções.